Em busca do parto normal (parte 1)

Muito antes de engravidar  já me interessava pelo assunto maternidade/gestação/parto. Sempre fui muito curiosa sobre o tema e lia, lia muito tudo o que encontrava pela frente. Eu não sabia, mas uns cinco anos atrás eu já era meio militante do parto normal.

Foi quando uma colega de trabalho me disse, aos quatro meses de gestação, que já tinha marcado a cesárea para o dia 03/03. Fiquei indignada. Como pode uma mulher querer encerrar dessa forma a gravidez, sem necessidade? O parto normal para mim era a via mais óbvia, não era possível que as mulheres estivessem se rendendo desta forma a uma cirurgia!

Alguns anos depois, foi pelo Twitter que acabei caindo no blog da Ligia. As pessoas davam as boas vindas à Clara, que depois de umas 30 horas de trabalho de parto, em casa, acabou nascendo por uma cesariana na maternidade. Essa foi uma cesárea realmente necessária, que só aconteceu depois de ainda ser tentado mais um pouco o parto normal na maternidade. Mas foi então que um mundo imenso se abriu na minha frente, e uma constatação: o parto normal está perdendo campo para a cesárea.

E então comecei a ler cada vez mais coisas sobre o assunto. E descobri que para uma mulher ter um parto normal, hoje em dia, não basta ela querer. Ela tem que estar informada, preparada e, acima de tudo, acompanhada por uma equipe que também queira o parto normal.

Não preciso ir muito longe para comprovar essa tese. Das oito amigas minhas que estavam grávidas em janeiro deste ano, somente três queriam ter parto normal. E só uma teve. As outras duas que queriam, acabaram sofrendo a cirurgia por algum motivo inventado pela equipe de plantão na maternidade.

Eu não quero isso pra mim. Minha busca pelo parto normal começou cinco anos atrás, muito antes de eu ter condições de ter um filho (como por exemplo conhecer o pai dele).

Resolvi abrir essa série de posts para tentar informar alguma mulher que ainda pense que para parir basta querer.

Para começar, trago aqui uma lista com os inúmeros falsos motivos inventados por médicos cesaristas para convencer a mulher a fazer a cesárea (lembrando, claro, que cada caso é um caso).

As 12 maneiras mais frequentes de enganar a mulherada – por Ana Cris Duarte

Cesárea 171-I: Cordão enrolado
A verdade: quase um terço dos bebês nasce com circular de cordão. Mas a gelatina que recheia o cordão ajuda a impedir que os vasos se fechem. Além disso o bebê não respira dentro do útero!

Cesárea 171-II: Pressão Alta
A verdade: A hipertensão é um problema grave, mas nos casos em que ela foge ao controle pode ser necessário induzir o parto normal.

Cesárea 171-III: Bacia Estreita
A verdade: Impossível saber o tamanho da bacia por dentro e os ossos da cabeça do bebê são soltos e se sobrepõem para passar pela bacia materna

Cesárea 171-IV: Bebê Grande
A verdade: Impossível saber o peso do bebê pelo ultrasom e os ossos da cabeça do bebê são soltos e se sobrepõem para passar pela bacia materna

Cesárea 171-V: Passou do Tempo
A verdade: A gravidez humana normal vai até 42 semanas. Passado o prazo considerado seguro, pode ser necessário induzir o parto normal.

Cesárea 171-VI: Parto Prematuro
A verdade: Bebês prematuros nascem em melhores condições se for por parto normal

Cesárea 171-VII: Diabetes Gestacional
A verdade: É uma condição em geral controlada com dieta, exercícios e medicamentos, e não tem qualquer relação com a via de parto. Nenhuma!

Cesárea 171-VIII: Bebê fez cocô (mecônio)
A verdade: O mecônio não é um problema, a não ser nos casos em que os batimentos cardíacos do bebê estão insatisfatórios, evidenciando sofrimento fetal. Mesmo assim a indicação é o sofrimento fetal, não o mecônio.

Cesárea 171-IX: A bolsa rompeu e não teve contração
A verdade: É só aguardar 24 horas e se não entrar em trabalho de parto, induzir. A indução pode levar até 48 horas para “engatar”. Antibióticos podem prevenir infecção. Fácil convencer o GO de esperar 72 horas, não é mesmo?

Cesárea 171-X: Não teve dilatação
A verdade: Todas as mulheres dilatam se aguardar a fase ativa do trabalho de parto.

Cesárea 171-XI: Não entrou em trabalho de parto
A verdade: Se não for colocada numa mesa cirúrgica, toda mulher entra em trabalho de parto.

Cesárea 171-XII: Na consulta de pré natal o colo do útero está fechado
A verdade: O colo do útero em geral fica fechado. O que faz ele abrir são as contrações de trabalho de parto.

Cesárea 171-I: Pouco líquido
A verdade: A diminuição do líquido amniótico é normal e esperada no final da gestação. No caso de diminuição acentuada, pode ser necessário induizir o parto normal, o que pode levar até 48 horas. Fácil convencer o GO de esperar 72 horas, não é mesmo?

Por Ana Cristina Duarte – Obstetriz – São Paulo

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9 pensamentos sobre “Em busca do parto normal (parte 1)

  1. A que eu mais escuto é “eu não tive dilatação”. Sim, marcando uma cesárea na 38ª semana é bem possível não ter nenhuma dilatação, afinal, a gravidez pode ir até a 42ª semana. Mas enfim, além de serem desculpas médicas (por praticidade, retorno financeiro e etc.), fico triste que são tbm desculpas de mulheres que por medo não quiseram encarar o parto normal. Então é mais fácil se deixar levar por esse “papinho” do que assumir o medo, a falta de informação ou até o egoísmo, em alguns casos.

    Beijos, Ananda.

    • Concordo, Ananda. Nossa sociedade anda tão “medicalizável”, que é muito mais fácil dizer que tem um problema (as pessoas adoram ter um problema) do que encarar um parto normal. Eu tenho um pouco de pena, pois não saberão o que é viver um nascimento plenamente. Mas também me preocupo com as consequencias desse tipo de atitude para as próximas gerações!

  2. Eu também sou dessas. Fascinada pelo assunto parto, antes mesmo de engravidar. E indignada com a situação aqui no Brasil. E também milito, correndo o risco de ser chata. Ainda essa semana a médica de uma conhecida “achou melhor” fazer logo o parto, sei nem com qual justificativa, e o bebê até hoje está na UTI, esperando ganhar peso. Claro que tiraram a menina prematura! Aff! Isso me revolta!!

    • Pois é, e não dá pra depois ficar jogando na cara da mulher que pode ser culpa da cesárea! Ela já está sofrendo com o bebê na uti, imagina pensar que a culpa pode ser dela! Então, é melhor engolir o “eu já sabia” e seguir adiante. Minha sobrinha tem 2 anos e 10 meses, e esses dias convenci minha irmã de que ela nasceu prematura. Poxa vida, ela era pra novembro, nasceu de cesárea em outubro. Hoje ela tem uma visão diferente sobre a bebê, pelo menos isso.
      Beijos!

  3. Tive um parto normal induzido, pois estava com a pressão alta. Minha médica foi 10 e não usou a desculpa esfarrapada para a cesárea!! Por isso a escolhi, na verdade. Foram 12hs de trabalho de parto, a indução correu super bem e o parto normal foi a melhor experiência que já vivi, definitivamente! Na salinha de pré parto, esperando pelo quarto, só mães que iam fazer cesárea… Escutei TODAS as desculpas acima… Elas também não tem coragem de assumir que preferem a cirurgia, então acabam acatando isso como verdade. Todas iam ter os bebês com cerca de 38 semanas, a minha nasceu com quase 41 semanas. Acho um absurdo que parto normal virou uma exceção no Brasil. Posts como esse são super úteis, pena que muitas grávidas não se informam tanto quanto você. Mas querer é o 1o passo para conseguir!!!! Vai dar tudo certo com você!

  4. Penso exatamente o mesmo: “para uma mulher ter um parto normal, hoje em dia, não basta ela querer. Ela tem que estar informada, preparada e, acima de tudo, acompanhada por uma equipe que também queira o parto normal.” Por isso mudei de médico depois do sexto mês de gravidez. Percebi que ele me faria uma cesárea… Procurei por outra profissional, que realmente fosse favorável ao parto normal. Deu certo. No final, consegui o parto que eu queria. 🙂 Abs!

  5. Eu também sempre tive muita curiosidade sobre o assunto, tenho um garotão de 7 anos que nasceu naturalmente, sem hipsio, sem pressa, numa casa de parto, com parteira e tudo que tive direito, vale dizer que fui muuuuito tratada, esperei o quanto foi preciso, gritei, chorei, andei, tomei banho, pq dói mesmo, eu sabia que doia, mas na hora é punk, mas fui firme na minha decisão, agora moro em SP e tô grávida de 2 meses e com muuita dificuldade em achar um médico que me apoie nessa decisão que quero ter o segundo da mesma forma que o primeiro, todos me dizem sem cerimônia que não podem ficar por minha conta durante 7 ou 8 horas, durante o processo do parto, que o plano de saúde não paga bem e já fui em mais de 8 médicos e a resposta é quase unânime….como pode?????quase riem da minha cara quando explico a situação…estou muito decepcionada….e insegura…achando que quando chegar a minha hora vou ser obrigada a fazer cesária…. e NÃO QUERO de forma alguma…o que fazer??

    • Nossa, é complicado mesmo Alynne…
      Uma dica: procure o grupo Parto Natural no Facebook, lá tem muita gente de São Paulo e elas podem te dar uma dica.
      O que muitas de lá fazem é ter um acompanhamento com um GO de convênio e depois ter o bebê nas casas de parto, abandonando os GOs. Afinal, quem pari é a gente, não é?
      Beijos

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